Reflexão O Saci é Nosso José Antonio Braga Barros São José dos Campos Muita gente tem me perguntado se é verdade que estou criando sacis, lá na Serra da Usina, em Minas Gerais. É. Contudo, não é uma granja de sacis. Muito mais do que criar, estou evitando que o saci faça parte de qualquer lista de seres extintos. Estou resgatando. Salvando o saci da extinção.
Lá em Paraisópolis existiam muitos sacis. Em minha família mesmo há vários testemunhos. Certa vez, quando em casa ainda existia "fogão-de-lenha", era comum meu pai comprar um caminhão de lenhas de café, que descarregado em frente ao número 795 da rua Silviano Brandão, nós moleques, tínhamos a tarefa de carregar galho por galho e colocá-los empilhados debaixo do porão da casa, para que bem acomodados, ficassem de fácil manuseio na hora de irem para o fogão, dentro de casa.
Foi em uma dessas aventuras de guardar a linha no porão que meu tio viu o saci, com toda a sua indumentária, gorro vermelho, cachimbo aceso de barro, sorriso maroto e aquela cara de safado... Foi correria para todo lado. Meu tio, nunca mais entrou no porão.
Acho que até o saci se assustou com tanta gritaria. Ficou um tempão sem dar as caras. Passado muitos anos, foi a vez de minha irmã caçula. Noutra ocasião, ela está varrendo o terreiro e lá apareceu ele, provocando a menina. Desta vez ele se deu mal. Ela não só o xingou, como ainda deu umas boas vassouradas no negrinho de uma perna só, fazendo o maior quiproquó.
Ano passado, o Tadeu Pimentel Cordeiro me escreveu uma carta maravilhosa, contando um episódio envolvendo o seu pai, tropeiro dos antigos, que fazia viagens de Minas para o Vale do Paraíba, transportando gado. Na serra da Bocaina teve um embate com o saci. Foi um bafafá. Estouro de boiada, correria, enfrentamento, um deus-nos-acuda. Até hoje existem sobreviventes deste acontecimento para confirmar Tim-tim-por-tim-tim.
Em Itajubá (50 km de Paraisópolis), já existem os criadores de saci, assim como em São Luís do Paraitinga e outras ongs como os "observadores de Saci" e a Associação Nacional dos Criadores de Saci, com site e tudo. Modestamente, também estou começando a criar. Já tenho a garrafa com rolha talhada em cruz, a peneira com cruzeta para capturá-lo, uma arapuca de bambu, uma corda com sete nós...
Como falei, não estou criando o saci preso em gaiola; como se fosse um frango de granja. Estou criando solto, aproveitando a natureza de meu sítio e dos vizinhos. Deixando crescer a capoeira. Desenvolvendo um pomar, o saci se alimenta de frutas, bananas, laranjas, mangas. Principalmente, cuidando do meio ambiente, deixando as cavernas nas pedras intactas, para que eles possam ocupá-las livremente. Logo iremos colocar algumas cabaças dependuradas nas árvores, para que também possam fazer os seus ninhos. Outra providência que estamos tomando é determinar uma trilha, para que silenciosamente algum curioso possa se posicionar para tentar vê-los ao cair da tarde. Fotografar, nunca! Rouba-lhe a alma.
Precisamos, de fato, transformar o 31 de outubro, no Dia Nacional do Saci. Assim como Monteiro Lobato gritou "O Petróleo é Nosso", precisamos unir vozes e gritar "O Saci é Nosso", antes que seja tarde.
José Antonio Braga Barros é professor de história e geografia em São José dos Campos

Escrito por JOCA às 11h23
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